A solidão de quem mora no exterior: quando nos faltam testemunhas da nossa história
- Laís Souza
- 14 de jul.
- 5 min de leitura
Atualizado: 24 de jul.
Por Laís Souza, Psicóloga Intercultural & ACT

Mudar de país é, por definição, um processo de reconstrução. Quando arrumamos as malas, levamos conosco planos, sonhos e uma identidade moldada ao longo de uma vida inteira. No entanto, ao desembarcar no novo destino, muitos imigrantes, expatriados e intercambistas se deparam com um sentimento persistente e difícil de nomear. Não se trata da falta de companhia no sentido literal. É algo mais sutil, silencioso e, por isso mesmo, mais doloroso.
Quem mora fora frequentemente passa o dia cercado de pessoas: são colegas de trabalho, clientes, vizinhos e, com o tempo, até novos amigos. Ainda assim, persiste a sensação de que ninguém ali realmente conhece quem você é. Essa é uma forma de solidão sobre a qual falamos pouco: a ausência de testemunhas da nossa própria história.
No Brasil, as pessoas ao seu redor sabiam exatamente por que você ria de determinada piada, conheciam a dinâmica da sua família, lembravam-se das suas conquistas de infância e compreendiam os seus medos sem que você precisasse explicá-los. Ao migrar, essas testemunhas ficam para trás. Você continua sendo a mesma pessoa, mas, de repente, ninguém ao seu redor conhece o caminho que o trouxe até aqui.
A solidão nem sempre é a falta de pessoas ao redor. Às vezes, ela é o peso de ter que traduzir quem você é a todo momento.
Quando pertencer vai além de "ter amigos"
Durante muito tempo, a psicologia tratou a solidão como uma mera consequência matemática de poucas relações sociais. Hoje, porém, sabemos que a experiência humana é mais complexa. A necessidade de pertencimento, como bem apontam os psicólogos Roy Baumeister e Mark Leary (1995), envolve não apenas o contato, mas o sentimento de ser visto, compreendido e reconhecido pelo outro.
Na migração, essa necessidade básica de pertencimento é profundamente abalada. Quem muda de país se vê no desafio de reconstruir seus vínculos sociais ao mesmo tempo em que tenta reorganizar a própria identidade em uma nova cultura. Não se trata apenas de aprender um novo idioma ou entender os códigos sociais locais. Trata-se de descobrir quem você consegue ser dentro desse novo contexto, quando suas referências habituais desapareceram.
A armadilha da "adaptação perfeita"
Existe uma fantasia comum entre quem migra de que, assim que a adaptação estiver concluída, a solidão desaparecerá de forma mágica. No entanto, adaptação e pertencimento são processos completamente distintos.
É perfeitamente possível falar fluentemente a língua local, ter um excelente emprego, dominar as rotas de transporte da cidade e resolver todas as burocracias cotidianas com total autonomia. Ainda assim, é comum sentir um vazio difícil de explicar.
Isso acontece porque a adaptação funcional diz respeito a como sobrevivemos, operamos e nos tornamos eficientes em um novo ambiente. Ela exige um esforço cognitivo imenso: aprender novas regras sociais, entender o humor local, adaptar-se ao clima e às leis do novo país. Trata-se de "ajustar as engrenagens" para que a vida funcione.

Para dar conta de manter essas engrenagens girando, muitas vezes criamos, de forma quase inconsciente, um personagem adaptado — uma versão de nós mesmos que se encaixa melhor na nova cultura. Passamos a sorrir mais (ou menos), calamos certas opiniões, modulamos o tom de voz e tentamos ser o imigrante, o expatriado ou o intercambista ideal aos olhos do outro. O problema é que manter essa máscara ativa durante todo o dia consome uma energia vital preciosa, gerando uma exaustão emocional profunda ao final de cada jornada.
O pertencimento, por outro lado, é de natureza puramente afetiva. Ele não acontece quando aprendemos a viver em um lugar, mas quando sentimos que podemos baixar a guarda e simplesmente existir de maneira autêntica. O verdadeiro pertencimento se manifesta como um alívio: ele surge naquelas relações onde não precisamos nos esforçar para sermos aceitos, onde podemos compartilhar nossas vulnerabilidades, nossas piadas internas e nossas esquisitices sem o medo constante de sermos mal interpretados ou julgados.

Quando confundimos essas duas buscas, corremos o risco de focar toda a nossa energia em nos tornarmos ainda mais eficientes e adaptados, esperando que isso resolva o vazio. Mas a verdade é que nenhuma quantidade de sucesso prático ou fluência no idioma consegue substituir a necessidade de sermos acolhidos exatamente como somos.
O que a ACT nos ensina sobre essa jornada?
Na Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT), nós não olhamos para as emoções difíceis como "defeitos" a serem consertados ou eliminados a qualquer custo. A solidão que você sente no exterior não significa que sua transição falhou ou que você tomou a decisão errada. Ela é, na verdade, um sinalizador.
As emoções dolorosas geralmente nos apontam o que realmente importa para nós. Se a solidão dói, é porque a conexão, a intimidade, a comunidade e a partilha autêntica são valores fundamentais na sua vida.
O problema surge quando tentamos transformar essa solidão em um inimigo a ser combatido imediatamente. Para não senti-la, muitas pessoas recorrem à esquiva vivencial: trabalham em excesso, preenchem a agenda com atividades superficiais, evitam momentos de silêncio e tentam se manter constantemente ocupadas. O paradoxo é que, ao tentarmos fugir do desconforto, acabamos nos afastando também das experiências e conexões reais que poderiam nos nutrir.
O caminho de volta para si mesmo
Se a solidão no exterior sinaliza que a conexão e a autenticidade são valores importantes para você, o caminho de volta não precisa começar com grandes passos ou com a pressão de fazer amigos íntimos da noite para o dia. Começa com pequenos movimentos conscientes de aproximação.
Isso significa, por exemplo, escolher uma única relação ou ambiente na sua semana onde você decida arriscar um pouco mais de espontaneidade. Pode ser o ato de compartilhar uma história real sobre o seu passado com um colega, em vez de apenas falar sobre o clima. Pode ser o resgate de um hobby ou hábito que você amava no seu país de origem e que acabou deixando de lado na tentativa de se integrar perfeitamente. Ou, ainda, pode ser a decisão de buscar um espaço terapêutico intercultural, onde você não precise traduzir a sua cultura para ser compreendido.
A pergunta que a ACT nos convida a fazer não é "como faço para nunca mais sentir solidão?", mas sim:
"Mesmo quando a solidão se faz presente, qual pequena ação eu posso realizar hoje para que a minha identidade real, e não apenas a adaptada, tenha espaço para respirar?"
Talvez você não precise de dezenas de conexões superficiais para preencher o tempo. Às vezes, o verdadeiro recomeço está em encontrar ou construir espaços — na comunidade, nos relacionamentos ou na terapia — onde você possa contar a sua história por inteiro. Afinal, a nossa identidade se fortalece no olhar de quem nos enxerga de verdade, e embora a jornada de migrar seja individual, o processo de pertencer sempre se constrói no plural.

Laís Souza
Psicóloga Intercultural &
Terapeuta de Aceitação e Compromisso (ACT)
CRP 04/86019
Sou a psicóloga por trás deste espaço. Trabalho ajudando brasileiros ao redor do mundo a navegarem pelos desafios da adaptação cultural, da solidão e da reconstrução de identidade longe de casa
Referências Bibliográficas
Baumeister, R. F., & Leary, M. R. (1995). The need to belong: Desire for interpersonal attachments as a fundamental human motivation. Psychological Bulletin, 117(3), 497–529. https://doi.org/10.1037/0033-2909.117.3.497
Hayes, S. C., Strosahl, K. D., & Wilson, K. G. (2012). Acceptance and Commitment Therapy: The process and practice of mindful change (2nd ed.). Guilford Press.
Jetten, J., Haslam, C., & Haslam, S. A. (Eds.). (2012). The social cure: Identity, health and well-being. Psychology Press. (Nota: O livro original é de 2012; em 2015 eles publicaram artigos derivados, mas este é o livro-base oficial).
Haslam, C., Jetten, J., Cruwys, T., Dingle, G., & Haslam, S. A. (2018). The new psychology of health: Unlocking the social cure. Routledge.
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